23 Dezembro, 2009


Tudo bem então:
Eu invento o vento.
Só não me peça pra dizer
que eu gostei do filme.
Só não me peça pra dizer
que entendi a peça.
Só não me peça pra dizer
que existe tempo ainda.
Só não me peça pra
emprestar meu ombro magro
pra esse choro de última hora.
Só não me peça pra dizer
que estava lá na hora.
Só não me peça pra jurar
esse amor, que nem sei se cheira
que nem sei as horas
que não sei o nome.
Tudo bem então:
Desinvente o vento.

17 Dezembro, 2009


Eu me despeço a cada dia.
E você entende pouco disso, de
se despedir.
Daí que, talvez por isso, eu
tenha menos pressa.
Eu não peço pra que nada ou
ninguém volte pra mim.
Você acha isso bobo,
sem referência.
Daí que, por não saber se
cada olhar não será o último,
só vejo o filme até aparecer
o the end.

15 Dezembro, 2009


Aí que quero um oriente. Aí que quero uma montanha com cheiro. Aí que quero um luar de outubro. E um mosquito pousa com delicadeza na página do livro de poesia que leio. Aí que quero um sim insistente. Aí que quero uma fotografia de um fusca em minha parede. Aí que quero uma mulher que caminhe descalça em câmera lenta. E uma vendedora de perfumes aperta com força a campainha da porta da casa que habita em mim. Aí que quero uma mão me acenando na rodoviária. Aí que quero um rio pequeno e limpo surgindo do nada, bem ali, na próxima curva. Aí que quero uma chuva rala, perto do meio dia. O telefone toca. Não vou atender.

14 Dezembro, 2009


(minha filha luisa, e sua primeira guitarra)


O violão tem o dom do encanto.
A guitarra, do espanto.
Vou estar sempre entre o encanto
e o espanto.

05 Dezembro, 2009




a barca leva e traz
quem quer ser levado e trazido
a barca só não leva o tempo
só não traz o vento

mais no blog:
http://fotosdelupeu.blogspot.com/2009/12/barca-leva-e-traz-quem-quer-ser-levado.html

03 Dezembro, 2009


Toque

(para pachelly jamacaru)

Toc, toc
Onomatopéia de batida na porta
Toc,
Transtorno obsessivo compulsivo
Toque
Uma música que fale de amor eterno
toque
pra saber se o filho demora a chegar
toque
com a ponta dos dedos o bico do peito
toque-se
no prazer solitário de se conhecer
toque
pra saber se frio ou quente
toque
pra saber se bicho ou gente
simplesmente
toque

13 Novembro, 2009


Meu olho me incomoda. Penso na bíblia sem serventia na sala: “se teu olho etcétera e tal, arranca-o e joga-o na fogueira”. Os caras não eram de brincadeira não. Olho jornais antigos. Gosto de noticias frias. Uma amiga minha fala que amou São Paulo as escuras. Imaginou que fosse o fim do mundo, mas não tinha trilha sonora competente, e ela sacou que era só mais um desastrezinho. Um cara escreveu no jornal “meu deus, eu não vi o rio de janeiro”. Me deu vontade de responder que também não. Fiquei com receio que ele entendesse que eu o estava apoiando, que aquilo era um tipo de oração e tal, não repliquei. Passo em revista as revistas, e meu amigo Gustavo me conta que a uniban não aceita meninas de vestidinho. Se teu olho te envergonha... me cago de medo desse povo que volta e meia proíbe alguma coisa. Mirisola diz que Jesus só anda mal acompanhado. Porra mirisola, você me assusta com sua lucidez. Daí penso que lucidez também pode ser passível de proibição. Assim como também não concordar. – “você nãoconcorda? Seu filho da puta! Vou cortar fora seus testículos para que você não estupre mais ninguém!” ui. Ui. Ui. Se meu olho me incomoda... o pastor quer cortar fora pedaços das pessoas: comeu? Corta o pau. Jogou bola ruim? Corta o pé. Roubou do povo? Recebe um milhão de votos e vai eleito. Minha poesia pede pra passear lá fora, peço pra ela fazer silêncio, que pode ser que apaguem as luzes, que pode ser que eles venham com seus cassetetes pra bater a granel, que pode ser que os picolés derretam, que pode ser que William bonner seja expulso por andar de minissaia expondo a bunda branca de vergonha do jornal nacional.

12 Novembro, 2009


Nada a ver com essa dor no peito. Nada a ver com a constatação absoluta e intrínseca dos meus defeitos com cheiro de cocaína e vinho tinto. Procuro o vidro com as anfetaminas coloridas. Vontade de ir assim sem sim. Vontade de ir sem dormir. De verdade, não conheço mais o cara que aparece na minha identidade. Te falo isso por telefone e você foge com seus delírios mal vestidos. Com seus vestidos cor de nada. Com suas flores de plástico recicladas de garrafas pet. Nada a ver com essa ânsia. Nada a ver com a discordância das notas desse piano. De onde veio a merda desse piano? eu mastigo os seios dos meus medos. Depois os regurgito. Pro meu deleite de fim de noite. No silencio entre uma apitada e outra de um guarda que nada aguarda da vida. Que nem eu.

09 Novembro, 2009

pra quem quiser ver
o que eu vejo


http://fotosdelupeu.blogspot.com

Você me enquadra no quadrado
Do teu olho cinéfilo
Pede uma história que se roteirize
Um melodrama sem remake
Procuro meu cigarro, penso,
Te digo que
Eu posso te contar de mim.
Eu posso te contar de quando fiquei sentado
durante duas horas na porta de um cinema
e a dama do meu melodrama não foi,
depois, como se fosse preciso um pedido
ralo de desculpas, disse que tinha ficado
ocupada com o vibrador, que ela chama delicadamente
de Patrick Swayze
Eu posso te contar de quando corri como um louco
pra ver se acompanhava o sorriso do meu melodrama
pelo vidro traseiro de um táxi que
a levou embora.
Ela ria pelo vidro. Vidrodrama.
Eu posso te dizer de quando enfiei a mão no bolso
na esperança de encontrar alguma coisa
que mudasse o rumo do meu melodrama.
Retirei a mão limpa.
E o meu melodrama riu,
Disse que eu ficasse tranqüilo,
Me disse que rumo é lenda, que a vida é isso: melodrama.
Eu posso te contar que um dia
Quis encarar uma briga pra defender o meu melodrama
tomei tantas porradas na cabeça
que desmaiei,
não sei se meu melodrama soube
me disse que entende pouco isso, de dramas
Eu posso te contar algumas histórias
que ouvi sentado ao pé de uma fogueira
em cima de uma serra linda e velha
meu melodrama não foi, disse que eu fotografasse
ela via depois, se desse tempo.
Eu posso te contar de quando aprendi a cantar
uma canção inteira
dos Beatles.
Meu melodrama disse, com uma risada
Assim, meio cinema novo
Que achava os Beatles uma comédia.

26 Outubro, 2009


Quero porque quero. E o querer me movimenta como se motor fosse. Ilegal. Como se fosse. Voraz como um afrodisíaco ainda não inventado. Dengo. Como se fosse dengo. Assim como se fosse um sorvete de gosto engraçado. Fruta gelada talvez. Como se fosse. Ansiedade de ver na cidade um caminho que minimize a dor de viver do resto. O cérebro, esse motor engraçado, ainda bem. Sei não das coisas que penso que sei. Abraço dado no que olha a bunda com fome. Silencio quando o que não quero ouvir salta na mesa. Deuses que envelhecem como se envelhecer não fosse. Impossível não se surpreender. Sei lá. Não sei. O a dois é quase três. Reticências onde pode haver interrogação. Eu sou o meu desejo. Eu sou o melhor que deus achou de fazer de mim. Eu sou uma instalação de um artista pop com lobotomia. É sim. Estou entregue. E tenho ânsia. E faço graça do relógio. E faço graça do tempo. Tem porra nenhuma acontecendo. Amanhã eu penso em depois de amanhã. Até porque sempre será domingo quando eu quiser.

A feliz cidade diz que guarda
no coração dela lá
a tal da felicidade.
Olha aí pela fresta.
Tem uma borboleta voando em silencio em cima de uma rosa matizada.
Eu não sei e sei desse sorriso.
Eu nem espero, e milito na não espera.
No vai e vem de um olho que teima em não me mostrar o que quero ouvir.
Eu não tenho o que estou dizendo que tenho.
Um tambor que bate dentro do peito em um ritmo só.
Arrisco o primeiro passo. Passo?
Um disse que disse uma vez.
Quatro cobras se engolindo no sonho pesadelo.
Eu quero um mar. Quer me dar um mar?
O sábio disse que não vai dizer nada disso. E se disser não prova.
A novidade deixa de ser na hora em que é dita.
E a montanha se desmancha devagar e sempre. Viu?
Eu vou morar em mim. E deve dar certo.
Vou esperar que o remendo se torne amálgama.
Uma tonelada de frases pensadas em um minuto.
Eu engulo compromissos com água.
O homem que olha a máquina cavando um buraco.
Ele é o buraco. É a máquina. O buraco é dentro dele.
É ele o urubu pousado no copo de vinho turvo.
É ele que acorda e cai no buraco que é ele mesmo.
O triste copo de vinho se esconde nos abismos do isso.
E a noite fria engole o homem.
Cheio de buracos.